Tudo começou nos idos de 1997. A menina e sua família se mudaram de Belém para Belo Horizonte para que o pai se fizesse doutor. Até aí tudo bem, ela tirava mudanças de letra, não era nenhuma novidade. Além do mais o colégio novo era de arrasar. Ela adorava todas as novas sensações que experimentava no alto de seus onze anos. A nova cidade, o novo clima, o novo colégio e os novos amigos, para ela todos sempre seriam maravilhosos amigos. Sempre foi apaixonada por gente, quem a conhece sabe que ainda é e sempre será, mas foi nesse clima de mudanças que a menina viveu sua primeira decepção amorosa.
O colégio era de classe média alta e ela uma estranha no ninho buscando se adaptar. Morena, baixinha, gordinha e de óculos na cara, ela era um prato cheio para as gozações dos amiguinhos. Mas não se intimidou até o dia que se apaixonou pelo garoto mais engraçadinho da turma. Seu nome era Pedro e tinha o coração de pedra. A menina tentou se aproximar contando, com seu sotaque chiado, histórias de sua terra natal. O menino com o coração de pedra pôs-se a caçoar da fala diferente que escutava e o fez com tanto esmero que largou cusparadas na cara da menina.
Indignada com o acontecido e sofrendo de coração partido, ela levou o assunto aos pais que, muito sábios, a aconselharam a o chamar para um bate papo no qual ela explicaria de onde veio e porque o sotaque, sem agressões, nada como a velha e boa conversa diplomática. Ela assim o fez e começou a explicar tudo, tim-tim por tim-tim, mas o garoto veio com a pergunta fatal:
- Onde fica isso, na floresta? Lá em Belém tem jacaré e macaco passeando pela rua?
A menina virou as costas admirada com tamanha ignorância e fez para si mesma uma promessa que talvez nunca cumprisse:
- Só vou me apaixonar por homens inteligentes que no mínimo saibam geografia.
O destino sabe bem o que faz.

