DO QUE É EM VÃO

Não caminhava, vagava

Não sorria, mostrava os dentes

Não falava, sussurrava

Não queria, suplicava.

Carregava marcas

Dedilhava desesperanças

Armava circos e cercos

Reinava, qual criança

Chovia raios de sol

Iluminava tempestades

Quebrava vidros

Cantava errado

Amava gentes, vivia plurais

E do tempo ao todo

Do que é em vão, o eco

Do som a nota

Da foto ao instante

Do nada um pouco

Do resto a migalha

De tudo o quase

Ficou um livro na estante.

(JM)

Image

(The Maiden – Gustav Klimt)

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sobre letras e formas

Costumava escrever diários. Tão logo aprendeu a escrever começou a compor suas primeiras queixas, reclames, confidências e variações, escrevia para alguém (algo) que não julgaria uma linha. Imprimia um quê fantástico, ilusório, hiperbólico em seus relatos, nem sempre era fiel à realidade dos causos e sentimentos, mas esse ar dava aos registros certo teor de livro, de narrativa digna de contador de história. Um dia uma aventura, outro dia romance, quase sempre suspense ou drama, ao menos era o que ela achava. E cresceu assim, agindo e pensando minuciosamente no que escreveria sobre a “aventura do dia”. Fez quinze anos, fez dezesseis, aprendeu a ouvir rock e a adicionar rebeldia e segredos às suas aventuras, mas jamais desistira de escrever seus diários, até rimas, até canções, cartas pra ninguém, escrevia e cada dia mais, e coisas que ninguém poderia ler, devaneava, iludia a si própria. Até certa gravidade passou a imprimir no papel, e foi ficando cada vez mais denso.

Chegou o dia em que seus diários foram desvelados. Por julgadores oficiais. Medo de ter suas aventuras descobertas não tinha, tinha medo de ser descoberta ela mesma. Temia que alguém que não visse nada demais naquelas linhas todas, naqueles anos todos de letras, que com a ida do tempo iam se transformando. Sempre arredondadas, as letras eram um drama a parte. Houve a época do caderno de caligrafia, houve a época da escrita em símbolos indecifráveis que só ela e poucas amigas saberiam dizer o que estava escrito, houve a época da escrita rimada, houve a época de poucas palavras, houve o tempo da escrita tremida, e houve, enfim, o cessar das letras.

Adulterou-se, fez-se adulta, e pouco a pouco já não sabia o que dizer ou como dizer aos seus diários. Na beirinha dos vinte anos sentiu que pouco importava o que escrevia e que as narrativas que vivia de nada serviam pra ninguém, seria julgada de qualquer forma, estigmatizada por qualquer sentido, ou pela falta dele. Percebeu que passou a se importar de fato com o que teriam dela e o que pensariam de suas narrativas fantásticas. Não entendia porque, mas talvez fosse a hora de sentir vergonha de tudo o que já tinha escrito, descrito, vivido ou criado. Talvez fosse a hora de enterrar aquela quantidade de palavras que tão bem a descrevia, que tanto a denunciava. Era então aquela a sensação de crescer, de amadurecer, de necessitar de ser alguém pra sociedade? O mais íntimo de si tendo que ser mantido longe dos olhos julgadores de todo mundo, de quase todo mundo.

Tomou-lhe uma sensação de ser social, de tato no trato, de encaixe e molde no que diziam ser o melhor pra todos. A vida em comunidade que excluía toda a magia do pouco importar-se, do fantasiar-se, da vida em narrativa pra si e não pros outros. O encanto foi quebrado quando se adulterou, quando sentiu o poder do mundo que tinha muitos anos a sua frente. O que estava ali tinha mais força que qualquer querer ser que dela havia sido resguardado naquelas linhas das dezenas de diários. Os que já estavam ali, quem sabe, já haviam sido engolidos pelos milhares de anos edificados no sufocar de narrativas pessoais que de nada valiam. Pensou que precisava aprender a tentar outros meios de ter cor, de ter fantasia, de ser história. Realizou que ao moldar-se minimamente talvez pudesse sentir-se mais parte de tudo aquilo que chamavam sociedade. Aprendeu a ser-se de um jeito coletivo e que no íntimo de sua individualidadescrita, que naquela vida solitária de papel que há tanto havia tentado levar, não seria nada além de uma personagem pra ninguém.

Da fome a implosão

Encanto é preciso

Do choro ao riso

A paixão ou o suplício

Do sim para o chão

De boca aguerrida

Com fala imprecisa

A pele implodida

Mascara o vulcão

Que queima por dentro

Ou arde em tormento

Que quer sem alento

A mesma sofreguidão

A fome de outrota

Que dá sem demora

Que Impiedosa devora

Os rastros da lassidão

(JMC. 30/01/2013)

 

 

 

Nota

 

Foi por não saber sobre idas e vindas. Ia e voltava como quem não sabe sobre partidas. Partia-se a cada ida mas juntava-se a cada volta. Acabou por ver em encontros e desencontros o sentido de ser e estar. A força com que sentia parecia maior a cada temporada, temporar era a razão, voltar, a construção. De quebras e colagens se fez mais rija, mais forte. Todo dia que começava era um ir que se aproximava. Fez-se lava, fez-se rocha. De erupção em erupção uma nova terra pra tornar-se. E torna-se cotidianamente, quem foi, quem é e quem quer ser. Descobre todos os dias que a melhor parte da vida e descobrir-se recomposta e refeita a cada raio de sol, a cada lua que sobe. Decide todos os dias que nada vai daixá-la esmorecer, que os desgostosos, os infelizes, os que insistem em olhar mais pro que de ruim a vida nos dá, não vão contaminá-la com a falta de crenças internas, pessoais, subjetivas. Acredita em si, nos seus, e cada partida é um parte ida, mas cada volta e uma reviravolta. E a espera por acontecimentos a move e sempre a moverá. 

 

não vi

C’est la vie

Passei e nem te vi

Olhei sequer sorri

Mas você tava lá

Viçoso, olhando pra mim

 

Não te olho só de medo

Vigio, te cuido em segredo

E só quando não te vejo

É que estás perto de mim

 

Como lava de vulcão

Explodo e seco no chão

Tal qual pedra

Dura e desigual

 

Nada em mim faz sentio

Nem verso, nemgemido

Só teu riso já perdido

Me distrai de todo o mal

 

J.M.s.c

bianca?!

No resguardo daquela solidão, na simpatia daquela canção, nada parecia ser mais cabível que estar em si. Na sala e na antessala nada além de mobília, de pedaços de coisa, coisas que refletiam o que fora um dia a maior das intenções, de fazer amor, de construir amor. Tudo muito bem cuidado para simplificar o que de mais complicado um dia tivera, discos, livros, revistas, flores, um quê de kitsch, um viés de sentimentalidades, meio colorido, meio tom pastel, nada definido, tudo simples, tudo barato, nada pobre. A música que tocava era algo como sorridente, uma tentativa vencedora que trazer serenidade àquela inquietude. Tudo tão bem congruente e desconexo. O que mesmo exige explicação diante da moldura que ali estava posta. Um jovem artista saberia muito bem expressar em tela aquela imagem. A moça, a casa, a música, a sala e a antessala, sofás e estantes, eletrônicos, livros e discos, flores de plásticos e porta-retratos, miniaturas, cortinas, brinquedos, tudo tão colorido e ao mesmo tempo tão pastel.

Da janela via-se um céu azul de poucas nuvens, nuvens que não desenhavam nada, e imaginação já não havia. Havia também outras janelas onde se escondiam outros mundos, outros tons, outras possíveis telas, tudo tão incongruente, tão sem encaixe. O silencio fazia barulho, sons de entranhas, sons de dentro de alguém, de alguns, e restos de paciência pareciam passear pelo ambiente. Restos de espera, restos de ilusão, pedaços de juventude. A juventude estava ali, e os pedaços ainda eram possíveis de juntar. Meias palavras e conclusões inteiras. Bastava isso para que houvesse diálogo. Um humor refinado, de limites bem marcados, tudo deixava clarescuro o agridoce daquela jovem.

sobre pais, paternidade e catarse.

Depois de tanta catarse chegou a hora de conseguir expor, revirar e abstrair alguns fatores da minha pequena vida que por muito tempo foram motivo de inquietações e obscuridade. Nunca mexi muito neste vespeiro por achar que me faria mal, e fez mal por muitas vezes, mas acho que agora é hora de falar, porque o que doía muito não dói mais. Bom, comecemos do começo: eu nasci de uma relação de amor que minha mãe teve com uma pessoa que eu pouco tive contato, mas sempre soube que existia e, mais do que isso, a partir do momento que entendi minhas origens, sempre busquei saber, fui atrás e tentei uma aproximação. Que fique claro que sempre tive um pai, que me deu muito mais que sangue, que foi muito mais além do biológico, meu pai Ronaldo, que enamorou-se da minha mãe quando eu tinha 3 meses, foi a figura que tive de referência paterna. Portanto, pai mesmo nunca me faltou, o problema é que eu sempre fui meio inquieta, curiosa, questionadora, e tive que ir atrás do cara que, pelo sim e pelo não, me colocou no mundo, me registrou e em determinado momento, quando meu pai Ronaldo quis, se negou a abrir mão da paternidade praquele que realmente sempre foi o meu pai.

Bom, cresci sabendo da existência do meu pai biológico, não de um jeito ruim, sempre soube que ele existia e que estava em algum lugar, e minha mãe, sempre cuidadosa, me dizia que ele era bom, que ele estava distante por motivos pessoais e eu nunca, até a adolescência me interessei em saber dele, não conscientemente. Nesse contexto fui até os dezesseis anos, quando resolvi que queria conhece-lo, saber quem ele era e estabelecer uma relação com ele. É assim que eu me lembro da história. Por motivos do subconsciente posso ter abstraído alguma coisa, esquecido, anulado, enfim, nem Freud explica. Quando tentei reestabelecer a relação, fui até bem recebida em algum momento, mas ele, mais uma vez por seus motivos, não pôde responder minhas expectativas. Não ouso questionar os motivos dele, mas sei que sofri por estes tais motivos.

Ora, adolescentes têm pouca coisa na cabeça além de hormônios agindo, falo genericamente, mas eu era uma dessas com poucas coisas na cabeça. E o que poderia ter sido superando facilmente, pra mim, sempre insegura, foi uma catástrofe. Julgava eu que nunca seria aceita por ninguém, ora, se nem meu pai biológico que, pelo que eu sabia até então, havia me feito em uma relação de amor, queria saber de mim, quem mais queria. Sendo assim, passei a agir como alguém que precisava ser aceita de qualquer jeito, por qualquer pessoa. Mutilei-me em múltiplos sentidos e de diversas formas, ele sumiu de novo, eu fiquei com minhas dores e inseguranças, e os que me amavam realmente, ao meu redor, sofreram junto comigo. Consigo falar sobre isso hoje, ainda caem algumas lágrimas, porque só eu sei o quanto sofri e o quanto fiz alguns sofrerem, mas superei quando me tornei mãe da Maitê, meu anjo.

Quando, depois de alguns anos de terapia, remédio, psicólogos, psiquiatras, e da ajuda incansável da minha mãe e do meu verdadeiro pai, consegui reerguer minha autoestima e minha paz, encontrei o amor do Eduardo e junto com ele a serenidade e o amor em forma de semente de vida, a Maitê. Assim entendi que as pessoas tem seus motivos, mas que o amor de filho e mãe, filho e pai, jamais pode ser esquecido, subtraído, diminuído, por motivo algum, e quem um dia fez isso foi fraco. Foi o caso do meu pai biológico: fraqueza. Fraqueza que magoou a mim, a própria filha dele. Perdoei porque sei que maldade e fraqueza não são a mesma coisa, percebi que fui abençoada com o pai que ganhei, e com a família que tive, e isso só aconteceu porque meu pai biológico abriu mão de me amar de perto, talvez amasse de longe, mas pra mim não foi o suficiente.

Meu pai biológico faleceu há um mês e eu entrei em estágio de catarse, sofri mais um pouco pela relação que eu nunca vou estabelecer, pelo monte de mágoa que ficou aberta, pelo tanto de palavras não ditas e amores mal resolvidos, mas superei. Sei que de onde ele está sabe do que sofri e do que ficou dentro de mim dessa relação. Se ele me amava ou não, nunca vou saber, o que tive de mais concreto foi o mais abstrato: a ausência dele e a desistência de um amor de pai e filha. O sangue e o nome dele carrego e carregarei pra sempre, mas as lembranças são doídas e efêmeras, pouco ficou do que poderíamos ter tido e jamais teremos. Quem sabe um dia eu possa explorar e abordar isso melhor, quem sabe isso tudo tenha contribuído pra mulher que eu sou, gosto de quem sou hoje e da forma como encaro a vida. A importância que o amor tem pra mim, a família que eu quero pra minha filha, o pai que ganhei e que me fez tão parecida com ele, a família na qual eu cresci e pela qual faço tudo, e especialmente os valores de honestidade e justiça que agreguei e que transmitirei pra minha filha são o que de melhor ficou disso tudo.

CATARSE MOMENTO 1, FIM!