sobre pais, paternidade e catarse.

Depois de tanta catarse chegou a hora de conseguir expor, revirar e abstrair alguns fatores da minha pequena vida que por muito tempo foram motivo de inquietações e obscuridade. Nunca mexi muito neste vespeiro por achar que me faria mal, e fez mal por muitas vezes, mas acho que agora é hora de falar, porque o que doía muito não dói mais. Bom, comecemos do começo: eu nasci de uma relação de amor que minha mãe teve com uma pessoa que eu pouco tive contato, mas sempre soube que existia e, mais do que isso, a partir do momento que entendi minhas origens, sempre busquei saber, fui atrás e tentei uma aproximação. Que fique claro que sempre tive um pai, que me deu muito mais que sangue, que foi muito mais além do biológico, meu pai Ronaldo, que enamorou-se da minha mãe quando eu tinha 3 meses, foi a figura que tive de referência paterna. Portanto, pai mesmo nunca me faltou, o problema é que eu sempre fui meio inquieta, curiosa, questionadora, e tive que ir atrás do cara que, pelo sim e pelo não, me colocou no mundo, me registrou e em determinado momento, quando meu pai Ronaldo quis, se negou a abrir mão da paternidade praquele que realmente sempre foi o meu pai.

Bom, cresci sabendo da existência do meu pai biológico, não de um jeito ruim, sempre soube que ele existia e que estava em algum lugar, e minha mãe, sempre cuidadosa, me dizia que ele era bom, que ele estava distante por motivos pessoais e eu nunca, até a adolescência me interessei em saber dele, não conscientemente. Nesse contexto fui até os dezesseis anos, quando resolvi que queria conhece-lo, saber quem ele era e estabelecer uma relação com ele. É assim que eu me lembro da história. Por motivos do subconsciente posso ter abstraído alguma coisa, esquecido, anulado, enfim, nem Freud explica. Quando tentei reestabelecer a relação, fui até bem recebida em algum momento, mas ele, mais uma vez por seus motivos, não pôde responder minhas expectativas. Não ouso questionar os motivos dele, mas sei que sofri por estes tais motivos.

Ora, adolescentes têm pouca coisa na cabeça além de hormônios agindo, falo genericamente, mas eu era uma dessas com poucas coisas na cabeça. E o que poderia ter sido superando facilmente, pra mim, sempre insegura, foi uma catástrofe. Julgava eu que nunca seria aceita por ninguém, ora, se nem meu pai biológico que, pelo que eu sabia até então, havia me feito em uma relação de amor, queria saber de mim, quem mais queria. Sendo assim, passei a agir como alguém que precisava ser aceita de qualquer jeito, por qualquer pessoa. Mutilei-me em múltiplos sentidos e de diversas formas, ele sumiu de novo, eu fiquei com minhas dores e inseguranças, e os que me amavam realmente, ao meu redor, sofreram junto comigo. Consigo falar sobre isso hoje, ainda caem algumas lágrimas, porque só eu sei o quanto sofri e o quanto fiz alguns sofrerem, mas superei quando me tornei mãe da Maitê, meu anjo.

Quando, depois de alguns anos de terapia, remédio, psicólogos, psiquiatras, e da ajuda incansável da minha mãe e do meu verdadeiro pai, consegui reerguer minha autoestima e minha paz, encontrei o amor do Eduardo e junto com ele a serenidade e o amor em forma de semente de vida, a Maitê. Assim entendi que as pessoas tem seus motivos, mas que o amor de filho e mãe, filho e pai, jamais pode ser esquecido, subtraído, diminuído, por motivo algum, e quem um dia fez isso foi fraco. Foi o caso do meu pai biológico: fraqueza. Fraqueza que magoou a mim, a própria filha dele. Perdoei porque sei que maldade e fraqueza não são a mesma coisa, percebi que fui abençoada com o pai que ganhei, e com a família que tive, e isso só aconteceu porque meu pai biológico abriu mão de me amar de perto, talvez amasse de longe, mas pra mim não foi o suficiente.

Meu pai biológico faleceu há um mês e eu entrei em estágio de catarse, sofri mais um pouco pela relação que eu nunca vou estabelecer, pelo monte de mágoa que ficou aberta, pelo tanto de palavras não ditas e amores mal resolvidos, mas superei. Sei que de onde ele está sabe do que sofri e do que ficou dentro de mim dessa relação. Se ele me amava ou não, nunca vou saber, o que tive de mais concreto foi o mais abstrato: a ausência dele e a desistência de um amor de pai e filha. O sangue e o nome dele carrego e carregarei pra sempre, mas as lembranças são doídas e efêmeras, pouco ficou do que poderíamos ter tido e jamais teremos. Quem sabe um dia eu possa explorar e abordar isso melhor, quem sabe isso tudo tenha contribuído pra mulher que eu sou, gosto de quem sou hoje e da forma como encaro a vida. A importância que o amor tem pra mim, a família que eu quero pra minha filha, o pai que ganhei e que me fez tão parecida com ele, a família na qual eu cresci e pela qual faço tudo, e especialmente os valores de honestidade e justiça que agreguei e que transmitirei pra minha filha são o que de melhor ficou disso tudo.

CATARSE MOMENTO 1, FIM!

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8 responses to “sobre pais, paternidade e catarse.

  1. Como você escreve bem, mas agora colocastes em letras o sentimento mais profundo que tinhas escondido no fundo do fundo do fundo da tua alma. Sei disso porque também guardei no fundo da minha alma a mesma frustração. Se ainda vale mais uma “dica”, a única coisa que acalma este sentimento é a certeza de ter tentado o amor, isso você fez e faz. Beijos!!!!!!!!

  2. Ju, realmente você sintetizou sua vida de forma brilhante. Seu texto me remeteu ao seu tempo de menina, você também me fez chorar.. Te amo.

  3. o mais lindo dessa história é o resultado: a mulher que te tornaste e a filha linda que tens educado. Mereces todo o amor de mundo e não há um ser humano que não se renda aos teus encantos. Tenho certeza de que todos os teus pais, mães, tios, avós, primos, amigos, e claro, irmãos, te amam e sempre te amaram onde quer que estejam…

  4. Sempre me comovo lendo teus textos pessoais, falando dos teus medos e desafios, da construção de ti mesma. Cada dia mais percebo que sou muito feliz por tu ter me escolhido e por eu ter podido te ajudar, apenas te amando, te cuidando, te doando um pouco de mim, sabendo que muito mais tu fez por mim, embora não consiga traduzir tão bem em palavras. Saiba que tudo que aconteceu, no meu entendimento, foi uma dessas “peças” que a vida nos prega e que servem para nos fortalecer, de algum jeito, pra depois sorrirmos cativantemente, como tu sempre soube fazer. Tens tudo o que citou no texto, somados a grandes e verdadeiros(as) amigos(as), onde quer que esteja. Te amo. Beijos.

  5. Este meu genro É O CARA!

  6. O que me deixa feliz é ver a sua serenidade prá abrir a alma. Ficando mais leve, seguirás ainda mais confiante e feliz.

  7. Cresci sabendo que aos cinco anos já era tia, nao tenho memoria de mais nada, só de que tirava uma onda dizendo por ai que já era tia! Depois de muitos anos tive a oportunidade de conhecer essa mulher linda que voce se tornou. Por escolhas como voce mesmo disse nao tivemos a oportunidade de conviver, mais fico feliz de saber que amor nao te faltou, que voce esta rodeada de pessoas que te amam demais e suficiente. E a nossa familia restounos amar-te assim…. de longe, no coracao e na memoria. Beijos

  8. Juju, orgulho! Lindo texto. Beijoca!

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