sobre letras e formas

Costumava escrever diários. Tão logo aprendeu a escrever começou a compor suas primeiras queixas, reclames, confidências e variações, escrevia para alguém (algo) que não julgaria uma linha. Imprimia um quê fantástico, ilusório, hiperbólico em seus relatos, nem sempre era fiel à realidade dos causos e sentimentos, mas esse ar dava aos registros certo teor de livro, de narrativa digna de contador de história. Um dia uma aventura, outro dia romance, quase sempre suspense ou drama, ao menos era o que ela achava. E cresceu assim, agindo e pensando minuciosamente no que escreveria sobre a “aventura do dia”. Fez quinze anos, fez dezesseis, aprendeu a ouvir rock e a adicionar rebeldia e segredos às suas aventuras, mas jamais desistira de escrever seus diários, até rimas, até canções, cartas pra ninguém, escrevia e cada dia mais, e coisas que ninguém poderia ler, devaneava, iludia a si própria. Até certa gravidade passou a imprimir no papel, e foi ficando cada vez mais denso.

Chegou o dia em que seus diários foram desvelados. Por julgadores oficiais. Medo de ter suas aventuras descobertas não tinha, tinha medo de ser descoberta ela mesma. Temia que alguém que não visse nada demais naquelas linhas todas, naqueles anos todos de letras, que com a ida do tempo iam se transformando. Sempre arredondadas, as letras eram um drama a parte. Houve a época do caderno de caligrafia, houve a época da escrita em símbolos indecifráveis que só ela e poucas amigas saberiam dizer o que estava escrito, houve a época da escrita rimada, houve a época de poucas palavras, houve o tempo da escrita tremida, e houve, enfim, o cessar das letras.

Adulterou-se, fez-se adulta, e pouco a pouco já não sabia o que dizer ou como dizer aos seus diários. Na beirinha dos vinte anos sentiu que pouco importava o que escrevia e que as narrativas que vivia de nada serviam pra ninguém, seria julgada de qualquer forma, estigmatizada por qualquer sentido, ou pela falta dele. Percebeu que passou a se importar de fato com o que teriam dela e o que pensariam de suas narrativas fantásticas. Não entendia porque, mas talvez fosse a hora de sentir vergonha de tudo o que já tinha escrito, descrito, vivido ou criado. Talvez fosse a hora de enterrar aquela quantidade de palavras que tão bem a descrevia, que tanto a denunciava. Era então aquela a sensação de crescer, de amadurecer, de necessitar de ser alguém pra sociedade? O mais íntimo de si tendo que ser mantido longe dos olhos julgadores de todo mundo, de quase todo mundo.

Tomou-lhe uma sensação de ser social, de tato no trato, de encaixe e molde no que diziam ser o melhor pra todos. A vida em comunidade que excluía toda a magia do pouco importar-se, do fantasiar-se, da vida em narrativa pra si e não pros outros. O encanto foi quebrado quando se adulterou, quando sentiu o poder do mundo que tinha muitos anos a sua frente. O que estava ali tinha mais força que qualquer querer ser que dela havia sido resguardado naquelas linhas das dezenas de diários. Os que já estavam ali, quem sabe, já haviam sido engolidos pelos milhares de anos edificados no sufocar de narrativas pessoais que de nada valiam. Pensou que precisava aprender a tentar outros meios de ter cor, de ter fantasia, de ser história. Realizou que ao moldar-se minimamente talvez pudesse sentir-se mais parte de tudo aquilo que chamavam sociedade. Aprendeu a ser-se de um jeito coletivo e que no íntimo de sua individualidadescrita, que naquela vida solitária de papel que há tanto havia tentado levar, não seria nada além de uma personagem pra ninguém.

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